
Ela era cega, morreu em 1996, e nunca escreveu uma linha sequer das próprias previsões. Ainda assim, o nome de Baba Vanga volta a circular com força toda vez que um ano novo se aproxima. Em 2026 não foi diferente. Nas redes, espalhou-se a ideia de que a vidente búlgara teria anunciado o contato da humanidade com seres extraterrestres justamente este ano. Quem decidiu que era esse o ano, e com base em quê?
Vangelia Pandeva Dimitrova, conhecida como Baba Vanga, perdeu a visão ainda jovem, numa tempestade na Bulgária. Depois disso, passou a ser procurada por vizinhos e, mais tarde, por figuras públicas em busca de conselhos e previsões. Ela nunca publicou um livro com suas profecias. O que existe hoje é um conjunto de relatos orais, recolhidos por terceiros ao longo de décadas. Esses relatos foram reinterpretados repetidamente depois da morte dela, em 1996.
É exatamente nesse ponto que mora o problema de checar qualquer “previsão de Baba Vanga”. Não há documentação original, datada e verificável, ligando o nome dela a datas ou eventos específicos. O que circula são compilações de segunda ou terceira mão, quase sempre sem fonte primária.
A previsão de contato extraterrestre em 2026 segue esse mesmo padrão: um relato popular, replicado em portais e redes sociais. Não existe registro contemporâneo que comprove que Baba Vanga disse isso enquanto viva. Ainda assim, a história pega tração todo ano por um motivo simples: ela conversa com um interesse que já existe por conta própria. Esse interesse é saber se a humanidade está sozinha no universo.
Esse interesse tem contexto real, aliás. Órgãos do governo dos Estados Unidos já divulgaram relatórios oficiais sobre avistamentos de fenômenos aéreos não identificados. Nenhum deles, porém, chegou a confirmar ou descartar de vez a origem de boa parte dos casos catalogados. Isso mantém viva a especulação, com ou sem ajuda de uma profecia de décadas atrás. Será que é essa brecha, mais do que qualquer previsão específica, que faz a história pegar todo ano de novo?
Vale a pena levar a sério?
Como fenômeno cultural, talvez sim: previsões como essa dizem mais sobre o que uma sociedade tem medo ou espera ver acontecer do que sobre qualquer capacidade real de prever o futuro. Como fato verificável, a resposta é bem menos confortável do que qualquer manchete admite. Ninguém consegue mostrar o documento original em que Baba Vanga teria dito isso, mas também ninguém consegue provar de vez que a frase nunca existiu, só que ninguém a registrou a tempo. E se algum evento grande o bastante acontecer neste ano, a pergunta que fica é: alguém vai lembrar da previsão porque ela realmente antecipou algo, ou só porque é fácil encaixar qualquer fato depois que ele já aconteceu? Por enquanto, ninguém tem como responder isso com certeza.
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