
Guerra na Ucrânia sem fim à vista. Arábia Saudita e Emirados Árabes rompendo décadas de aliança. China, Rússia e Coreia do Norte cada vez mais próximas, de olho em Taiwan. Analistas de risco já têm um nome para esse acúmulo de crises que se alimentam umas das outras: policrise.
O termo não é novo. Mas ganhou força no Global Risks Report 2026, relatório que reúne especialistas em geopolítica, economia e clima para mapear os riscos do ano. A conclusão do documento é direta: o mundo não enfrenta uma crise isolada, enfrenta várias ao mesmo tempo, e elas se retroalimentam. Um conflito regional encarece energia. A energia mais cara, por sua vez, pressiona economias frágeis, que alimentam instabilidade política, e o ciclo recomeça em outro ponto do mapa.
O confronto entre Rússia e Ucrânia começou em 2022. Mas as raízes vêm de muito antes, ligadas a disputas territoriais históricas e à ambição russa de recuperar influência no Leste Europeu. Passados os primeiros anos de guerra aberta, a situação no front segue sem solução diplomática consolidada. Cada rodada de negociação frustrada reforça a mesma pergunta, que ronda as chancelarias europeias: até onde a Rússia está disposta a ir para não perder terreno estratégico na região?
Boa parte da relevância econômica do Oriente Médio vem do controle sobre algumas das maiores reservas de petróleo do planeta. Por isso, qualquer instabilidade ali tende a encarecer energia no mundo inteiro, com efeito cascata sobre preços de transporte, indústria e alimentos. É justamente nessa região que um dos realinhamentos mais significativos de 2026 está em curso. As relações entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, historicamente próximas, se deterioraram de forma acentuada. Isso remodela o conflito no Iêmen e reabre disputas de influência que pareciam acomodadas.
Do outro lado do globo, o Estreito de Taiwan concentra a atenção de governos e mercados. A cooperação crescente entre Rússia, China e Coreia do Norte reorganiza o tabuleiro do Indo-Pacífico. Qualquer movimento mais brusco na região pode reverberar em cadeias de suprimento globais, sobretudo na indústria de semicondutores, da qual o mundo inteiro depende.
Nenhuma dessas frentes existe isolada. Energia, tecnologia, alimentos e capital circulam pelo planeta inteiro. Um choque em uma ponta do tabuleiro chega, com atraso, na conta de luz ou no preço do combustível em qualquer outro país. É esse encadeamento que os autores do relatório chamam de policrise: não um evento único e previsível, mas um sistema de riscos conectados. Prever o próximo movimento, nesse cenário, ficou mais difícil do que em qualquer outro momento recente.
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